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25/09/2006 A Casab. c. A Casa, que nunca fechou suas portas, andou meio abandonada. Vazia, a poeira amontoando, garrafas vazias jogadas no chão. Era uma casa, era um sonho, era um recanto. Mas de tão vazia, de tão abandonada, começou a ruir. Ninguém por lá mais passava. Não se sentia mais cheiro de café. Quiçá broa! Mas a Casa, essa danada, se cansou! Gritou bem alto, sacudiu poeira, e agora, com a mesma cara de sempre, com o mesmo desejo de antes, Foi pro fogão. Esquentou a água, Mexeu a farinha, com duas gemas de ovos, e mais tantas outras coisas. E enfim, café fresco, bolo de fubá, espera, ansiosamente, os velhos e novos amigos! 02/07/2005 Coração VagabundoCaetano Veloso Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer Meu coração de criança não é só a lembrança de um vulto feliz de mulher que passou por meus sonhos sem dizer adeus e fez dos olhos meus um chorar mais sem fim Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim 14/04/2005 CorridinhoAdélia Prado O amor quer abraçar e não pode. A multidão em volta, com seus olhos cediços, põe caco de vidro no muro para o amor desistir. O amor usa o correio, o correio trapaceia, a carta não chega, o amor fica sem saber se é ou não é. O amor pega o cavalo, desembarca do trem, chega na porta cansado de tanto caminhar a pé. Fala a palavra açucena, pede água, bebe café, dorme na sua presença, chupa bala de hortelã. Tudo manha, truque, engenho: é descuidar, o amor te pega, te come, te molha todo. Mas água o amor não é. 18/01/2005 Delírios - Sábado à noiteBruno Coutinho Toca meu ombro Calado Olho para o lado - Me dá um cigarro Rua escura Muitas vozes, poucas almas - Não vai entrar não? Lá dentro forte cheiro de fumaça toca um disco de jazz Nada na minha mente - Há quanto tempo? Tempo demais – ou será tempo de menos? Sem toque, sem tato Sombras Vozes que se misturam Inaudíveis Esbarro em algo -É a esperança perdida... Mas se eu a encontrei? Não a sua, esperança de outro - Cadê a minha? Fugiu pra longe Longe onde? Mais longe do que você pode alcançar... Restos... Meu estômago embrulha - Me dá um cigarro! Não tenho fogo... apagado Derrubaram minha taça Onde está o tempo? Já passou... Cabeça Preciso desmaiar... 18/01/2005 Queria fazer poesia fina...Bruno Coutinho Queria fazer poesia fina Usar palavras rebuscadas Escrever intrínsecas, Interstícios... Queria fazer poesia fina Desenhar metáforas Falar da microscopista E da dona fia Queria fazer é poesia de luxo Falar do crepúsculo Baudeleirar... Queria mesmo é fazer poesia simples Arroz com feijão Angu, chuchu... Mas não sei fazer poesia fina Nem de luxo Só sei contar palavras Sem rebusco, Sem sentido Sei misturar as sentimentalidades Em panela de barro Temperar com lágrimas E soluços Lendo receita da ofélia (adélia?) 08/01/2005 A Poesia Me Persegue...A poesia me persegue Porcarias... Por horas me esqueço dela E começo a viver Mas quando nem bem começo a ser feliz, Ela me puxa pelo ombro e sussurra: “Não esquece de mim...” 08/01/2005 Com Licença PoéticaAdélia Prado Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos - dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade da alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou 08/01/2005 Poema de Sete FacesCarlos Drummond de Andrade Quando nasci, um anjo torto Desses que vivem na sombra Disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens Que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, Não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: Pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos Não perguntam nada. O homem atrás do bigode É sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos O homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste Se sabias que eu não era Deus Se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo, Se eu me chamasse Raimundo Seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, Mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer Mas essa lua Mas esse conhaque Botam a gente comovido como o diabo. 08/12/2004 Sentimento do MundoCarlos Drummond de Andrade Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado, eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto o pântano sem acordes. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. Sinto-me disperso, anterior a fronteiras, humildemente vos peço que me perdoeis. Quando os corpos passarem, eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite. 15/11/2004 A SalaMaíra Paiva Casa dos Contos apresenta: A Sala Esta era apenas a sala. Uma sala tão suave Que exalava o aroma do vinho. Um cheiro que embriagava as lembranças de contos antigos. Felizes éramos tantos amigos. Na verdade, queríamos sempre mais. Os sabores se misturavam naquela sala. Sonhei em ter de volta as horas. Onze, doze, treze horas... O tempo estava esparramado no chão. E havia livros. E havia a madrugada. Belos contos, notáveis palavras. Uma música embalava a garrafa que aos poucos se cansava e dançava lá, pela metade. Dois prá cá, dois prá lá... Essa era apenas a sala e esse, ah... esse era apenas o meu conto... Este conto e o desenho eu ganhei de presente da artsita plástica Maíra Paiva, minha grande amiga e grande incentivadora. 15/11/2004 Dona DoidaAdélia Prado Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora. Quando se pôde abrir as janelas, as poças tremiam com os últimos pingos. Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema, decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos. Fui buscar os chuchus e estou voltando agora, trinta anos depois. Não encontrei minha mãe. A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, com sombrinha infantil e coxas à mostra. Meus filhos me repudiaram envergonhados, meu marido ficou triste até a morte, eu fiquei doida no encalço. Só melhoro quando chove. 12/11/2004 Lar doce LarCristina Maria de Medeiros Aqui em casa moramos quatro: Deus, eu, o Capeta e o rato. Deus mora no maior quarto. Na porta tem uma plaquinha dizendo: Não perturbe! E é isso mesmo que eu faço, nesse quarto eu nunca bato. E se batesse, nem mamãe, nem o padre perdoariam... (Diriam que é sacrilégio!) Não sei quando Ele sai, quando volta, que bares freqüenta, como são Seus amigos. Se ri, se chora, se ama... Sei apenas da plaquinha: Do not disturbe! Já o Capeta é um homem feio, cheiroso e bem arrumado. Tem a pele macia e a voz aveludada. O Capeta sabe de muitas coisas. Me fala dos castelos da Espanha, dos monges tibetanos e do poder da telepatia. Toda noite ficamos os dois na sala. Bebendo vinho branco e ouvindo Elis. De tempos em tempos cedemos ao vício, e aprontamos as cartas pro jogo. O Capeta é cavalheiro, e por isso eu sempre começo: Faço uma pergunta. Se ele responde e me convence (certo ou errado não sabemos, talvez nunca saberemos, talvez mesmo não importe...)Se ele responde e me convence, tem direito a me fazer duas perguntas, e assim o número de dúvidas vai crescendo. O problema é que eu nunca encontro as respostas, e por isso acho que sempre perco. Quando nos cansamos do jogo, o Capeta me conduz até o meu quarto (é que os corredores aqui em casa são longos, pouco iluminados, e eu tenho medo do escuro) Então ele me diz boa noite e vai dormir, mas não sem antes me dar um beijo na testa e desejar um sono tranqüilo velado pelos anjos. Quando ele sai eu rezo. Rezar é bom. É como contar carneirinhos... Dá um soninho gostoso... E eu durmo. Algumas vezes me masturbo ( Sem ruídos, pra Deus não ouvir), depois eu durmo. Esqueci de contar do Rato. Mas não se preocupe, é que o Rato está em todo lugar. É como a Bruxa... O Rato está roendo você Está roendo a folha. O Rato roeu a roupa do tal rei de Roma. O Rato roeu o próprio rei. O Rato rói tudo. Eta Ratinho safado Poema "roubado do A4 Mãos 07/11/2004 DesejoVictor Hugo Desejo primeiro que você ame,E que amando, também seja amado. E que se não for, seja breve em esquecer. E que esquecendo, não guarde mágoa. Desejo, pois, que não seja assim, Mas se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos, Que mesmo maus e inconseqüentes, Sejam corajosos e fiéis, E que pelo menos num deles Você possa confiar sem duvidar. E porque a vida é assim, Desejo ainda que você tenha inimigos. Nem muitos, nem poucos, Mas na medida exata para que, algumas vezes, Você se interpele a respeito De suas próprias certezas. E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo, Para que você não se sinta demasiado seguro. Desejo depois que você seja útil, Mas não insubstituível. E que nos maus momentos, Quando não restar mais nada, Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé. Desejo ainda que você seja tolerante, Não com os que erram pouco, porque isso é fácil, Mas com os que erram muito e irremediavelmente, E que fazendo bom uso dessa tolerância, Você sirva de exemplo aos outros. Desejo que você, sendo jovem, Não amadureça depressa demais, E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer E que sendo velho, não se dedique ao desespero. Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e É preciso deixar que eles escorram por entre nós. Desejo por sinal que você seja triste, Não o ano todo, mas apenas um dia. Mas que nesse dia descubra Que o riso diário é bom, O riso habitual é insosso e o riso constante é insano. Desejo que você descubra, Com o máximo de urgência, Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos, Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta. Desejo ainda que você afague um gato, Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro Erguer triunfante o seu canto matinal Porque, assim, você se sentirá bem por nada. Desejo também que você plante uma semente, Por mais minúscula que seja, E acompanhe o seu crescimento, Para que você saiba de quantas Muitas vidas é feita uma árvore. Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, Porque é preciso ser prático. E que pelo menos uma vez por ano Coloque um pouco dele Na sua frente e diga "Isso é meu", Só para que fique bem claro quem é o dono de quem. Desejo também que nenhum de seus afetos morra, Por ele e por você, Mas que se morrer, você possa chorar Sem se lamentar e sofrer sem se culpar. Desejo por fim que você sendo homem, Tenha uma boa mulher, E que sendo mulher, Tenha um bom homem E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes, E quando estiverem exaustos e sorridentes, Ainda haja amor para recomeçar. E se tudo isso acontecer, Não tenho mais nada a te desejar. 31/10/2004 E a Morte Perderá o seu DomínioDylan Thomas E a morte perderá o seu domínio. Nus, os homens mortos irão confundir-se com o homem no vento e na lua do poente; quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas. Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido; mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir; mesmo que os amantes se percam, continuará o amor; e a morte perderá o seu domínio. E a morte perderá o seu domínio. Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar não morrerão com a chegada do vento; ainda que, na roda da tortura, comecem os tendões a ceder, jamais se partirão; entre as suas mãos será destruída a fé e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento; embora sejam divididos eles manterão a sua unidade; e a morte perderá o seu domínio. E a morte perderá o seu domínio. Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos nem as vagas romper tumultuosamente nas praias; onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor erguer a sua corola em direcção à força das chuvas; ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer como pregos as suas cabeças pelas margaridas; é no sol que irrompem até que o sol se extinga, e a morte perderá o seu domínio. 29/10/2004 VersosBruno Coutinho Tento versos tristes mas tristeza, abandonou-me Tento desejos secretos, mas desejos, já não os tenho Rabisco palavras sem nexo vasculho a mente a procura dos versos Recordo, leio e discordo Não me alcança a poesia não me tocam nem as canções não há melancolia, não há alegria do vazio me rebusco me vasculho, me procuro Não me encontro. Ser vazio, sem dor, sem amor nada do que me digas minha alma escutarás nada que me cante meus olhos encantarão não sou alegre, nem sou triste, como cecília, mas poeta também não sou, eu sou aquele que ronda o breu e que voa em torno da luz, mas sem tocar nem um, nem o outro não me peça para sorrir também não peça meu choro nada vejo, nada posso apenas continuo não sei para onde, não me pergunte. estou ao sabor das marés para onde me jogarem, estou indo minha voz já não se escuta e meus ouvidos, nada ouvem sequer meus versos posso terminar. não sou alegre. não sou triste. não sou cecília, não sou drummond 30/09/2004 Venho de Tempos AntigosHilda Hist Deus pode ser a grande noite escura Venho de tempos antigos. Nomes extensos: Vaz Cardoso, Almeida Prado Dubayelle Hilst... eventos. Venho de tuas raízes, sopros de ti. E amo-te lassa agora, sangue, vinho Taças irreais corroídas de tempo. Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho. Como se pisássemos em avencas E elas gritassem, vítimas de nós dois: Intemporais, veementes. Amo-te mínima como quem quer MAIS Como quem tudo adivinha: Lobo, lua, raposa e ancestrais. Dize de mim: És minha. 18/09/2004 ConviteLya Luft Não sou a areia onde se desenha um par de asas ou grades diante de uma janela. Não sou apenas a pedra que rola nas marés do mundo, em cada praia renascendo outra. Sou a orelha encostada na concha da vida, sou construção e desmoronamento, servo e senhor, e sou mistério A quatro mãos escrevemos este roteiro para o palco de meu tempo: o meu destino e eu. Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a sério. 06/09/2004 Procura da PoesiaCarlos Drummond de Andrade Não faças versos sobre acontecimentos.Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro são indiferentes. Não me reveles teus sentimentos, que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia. Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto. Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era. Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço. Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo. 27/08/2004 FozQuedo-me em mim Cachoeira, me esvaio Deságuo-me sem fim ne transbordo, me espalho Se às vezes sufoco, às vezes sacio. Não me acalmo nem me agito Sigo sem nexo Sem rumo Convexo. Quedo-me a sós. Meu destino, minha foz. 25/08/2004 Não me sei moderno...Pedro Phalesia Não me sei moderno Nem me sei dizê-lo. Sei que cultivo, Lavrando-me No arado dos livros E nas ondas dos discos, As sementes sobreviventes Do que me será eterno. Não me sei social Nem me sei comunitário. Sei que sobrevivo, Guiando-me, indivíduo, Entre verdades e hipocrisias... E busco, entre o entulho dos dias, Despojar-me de todas as peles: Andar sempre em carne viva Como quem se esquece da morte e da vida. Caminhar, só caminhar... Sentir a paz a chegar... Não me sei moderno Nem me sei social. 12/08/2004 As CoisasArnaldo Antunes As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz. "As coisas querem ser coisas, que na verdade não são..." Cecília Silveira 02/08/2004 Quero Escrever Borrão Vermelho de SangueClarice Lispector Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco-se-me-dá. Nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei. Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito. O clímax de minha vida será a morte. Quero escrever noções sem o uso abusivo da palavra. Só me resta ficar nua: nada tenho mais a perder. 23/07/2004 Dá-me Tua MãoClarice Lispector Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio. 23/07/2004 ApreçoBruno Coutinho Passarinho que voa sozinho, não tem pra onde voltar... 14/07/2004 ReformaBruno Coutinho Reformei a casa Tirei a tinta velha das paredes, mudei os móveis de lugar, Botei à mesa a louça de jantar. Tirei o pó dos armários. Bati o tapete na janela. Troquei os quadros da parede. Comprei bibelôs no centro, nas barraquinhas da Oiapoque. Arranquei as cortinas velhas. Troquei lustres, enfeites, e sonhos. Troquei as cores, os odores, os temores Agora olho a nova casa: Tão velha como antes tão nova como antes, tão minha como pode... 30/06/2004 O Poeta é a Mãe das ArmasTorquato Neto O poeta é a mãe das armas & das Artes em geral alô, poetas: poesia no país do carnaval; Alô, malucos: poesia não tem nada a ver com os versos dessa estação muito fria. O Poeta é a mãe das Artes & das armas em geral: quem não inventa as maneiras do corte no carnaval (alô, malucos), é traidor da poesia: não vale nada, lodal. A poesia é o pai da ar- timanha de sempre: quent ura no forno quente do lado de cá, no lar das coisas malditíssimas; alô poetas: poesia! poesia poesia poesia poesia! O poeta não se cuida ao ponto de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo já sabe: não está cortando nada além da MINHA bandeira ////////// = sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar. Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a r: em primeiríssimo, o lugar. poetemos pois 24/06/2004 Soneto de um CativoLeonardo Gonçalves Muito eu tinha pra viver, esperança que esqueci, pensando apenas em me guardar E querendo não te querer, os meus valores confundi, procurei me embalsamar Dizendo-me para esquecer, muitas coisas eu calei, as paredes a me punir Pergunto-me o porquê, responder eu já nem sei, sigo fingindo não fingir O coração oprimido já transforma formol em merecidas lágrimas Preparando-se para unir-se às sombras agônicas da lua minguante Ainda assim, não rejeitou o estudo das preciosas páginas Que no livro da vida diz transformar sonhos em diamantes Mas nem mesmo a etopéia, decifrando o indecifrável Nem mesmo a panacéia, solucionando o improvável Compreendem este amor: eterno, pleno e inafastável Impossível seria neste soneto finito resumir lembranças que tenho descalço a andar Há muito perdi-me nas páginas de tal livro, acabando por viver a me acorrentar Levando a estacionada vida de um cativo, fingindo pra mim mesmo aceitar 14/06/2004 Vivendo e aprendendo......mesmo que tarde, antes do nunca Marcelo Nocelli Já não era mais o mesmo desde o dia em que abandonara o velho trabalho em que passou a vida pensando amar. Hoje era o grande dia de sua vida, nunca ia esquecer este dia 29 de março de 2048, sentia-se como um jovem recém formado saindo da faculdade para enfrentar a vida e cheio de esperança e expectativas. Quando iniciou sua vida profissional, na década de 90, foi difícil largar a música, os amigos, a vida noturna, os bares. Mas não tinha outra escolha, precisava abandonar o velho sonho de vencer um grande festival de música, não podia ficar tocando em bares a vida toda, correr atrás de uma carreira artística seria quase impossível, já que a concorrência sempre foi muito grande, não poderia passar o resto da vida procurando uma oportunidade para começar a busca pelo sucesso, já estava com vinte anos, a faculdade acabou, precisava de um trabalho sério, a namorada já falava em casamento; Mas como? se não tinha ainda um emprego ou ao menos qualquer fonte de renda. Além do mais, tocar era uma coisa normal entre os adolescentes - todos nesta idade sonham em se tornarem cantores famosos um dia - o melhor era procurar um emprego na área que acabara de se formar, mesmo passando toda a festa de formatura da universidade analisando e pensando mais na banda que ali estava à tocar, do que nos cinco anos de engenharia que acabará de findar. Mas ao mesmo tempo não queria para si, passar o resto da vida tocando em bailes de formaturas... E quando ficasse mais velho, tocaria o que? Cobraria quanto? Alguns trocados?! Sentiu medo! Seria como esses "Elvismaniacos" vestido a caráter e tocando para jovens recém formados embriagados a zombar-lhe. Não! Agora é hora de pensar na vida. Seguir em frente. Trabalhar, casar, constituir família. Conseguiu antes mesmo do esperado um bom emprego, fez carreira, obteve êxitos, grandes negócios, boas oportunidades, claro que não conseguiu perceber algumas outras oportunidades na hora certa, mas mesmo assim aproveitou a maioria das que apareceram. Casou-se, teve filhos, adquiriu bens, casas, chácaras, carro importado, tanta coisa que mal conseguia tempo para aproveita-las, cumpriu durante anos uma rotina que na verdade não sabia exatamente se realmente gostava ou não, mas era a vida, sabia que nem tudo é felicidade, nada é fácil, e todos temos nossas obrigações a cumprir. Mesmo assim nunca deixou de tocar, fazia isto como um hobby, nas festas de família ou em qualquer oportunidade que lhe aparecesse, não podia ver alguém segurando um violão, cansou de escutar elogios dos amigos, parentes e até dos desconhecidos. O tempo passou, conseguiu a já sonhada aposentadoria, não tinha que se preocupar mais em trabalhar, afinal fazia parte dos 5% dos aposentados brasileiros que não precisam mais continuar trabalhando para sobreviver, sentiu-se realizado, batalhou a vida inteira por esse momento, agora era só descansar e esperar o tempo passar, pra não dizer "esperar a morte chegar". Pode se dedicar mais ao seu passatempo preferido, tocar violão em qualquer lugar que desse vontade, nos bares, nas festas e em casa a qualquer hora. Até que um velho amigo dos tempos de universidade resolveu por brincadeira inscreve-lo no mais importante festival do país, a principio por brincadeira ou incentivo para alegrar o amigo. Foi classificado, mas chegou a pensar em não se apresentar, claro que os amigos não deixaram que fizesse isso... Não foi nenhuma surpresa para todos, a não ser para ele mesmo, que conseguiu o primeiro lugar com méritos. Daí pra frente foram convites e mais convites para programas de TV, rádio, entrevistas para jornais, revistas, pedidos de grandes cantores para gravar suas músicas, etc... Hoje 29 de março de 2048, aos 73 anos estava assinando um contrato milionário com uma gravadora de porte internacional, pelo direito exclusivo de suas composições por um período de três anos com prioridade de renovação após o término do contrato. Agora só resta rezar para o tempo passar bem devagar e torcer muito para que a morte demore a chegar, pois uma nova vida esta apenas começando para este homem. 12/06/2004 VazioBruno Coutinho Nas minhas mãosMeus dedos se encontravam Tão meus... tão seus Nada de mim em ti Tanto de ti em mim... 11/06/2004 Projeto Curtas Casa CulturaA Casa Cultura estará disponibilizando agora a cada semana um curta-metragem diferente, mostrando o que há de novo, e de velho, na produção independente do cinema brasileiro! Acessem Casa Cultura e aproveitem! 11/06/2004 1.000!!!Bom, tentei colocar os agradecimentos aqui para todos que me ajudaram a alcançar as 1.000 visitas mas realmente não consegui, pois toda hora quebrava o link, ou atrapalhava o template, e aí de repente apagou o post todo, e eu não tenho nem idéia de onde ele foi parar! Bom, então, obrigado a todos!! A Casa dos Contos terá sempre um cafézinho passado na hora para as visitas!!! Desenho: Bruno Coutinho - Música de Flávio Henrique e Chico Amaral 08/06/2004 ColagemMáscaras do Teatro; Lampião e Maria Bonita; Mao Tsé Tung em obra de Andy Warhol; Clarice Lispector; estátua de Drummond em Copacabana; Emily Dickinson; Mário Quintana; Vinícius de Moraes; postêr de show de Bob Dylan; Freud; desenho de cidade; Fernão Capelo Gaivota; Che Guevara; Jim Morrison; Dylan Thomas; poema de Hilda Hist; Oscar Wilde 07/06/2004 VivênciaBruno Coutinho Na casa vazia, de onde nunca havia saído antes, resolvera abrir a janela. Sombra não havia, pois não há sombra se não há luz. Formas e cores, também não. Nem o negro, pois na ignorância do branco e do azul, o negro não se conhece. Era sempre o mesmo, o mesmo nada. Nada de cor, nada de luz, nada de trevas. Nada se via, nada lá havia. O que era, não sei... não era! O que fora, ah... o que fora! Não sabia... sequer sabia distinguir o passado do futuro. Mas sabia que algo fora, sem sequer saber o que isso significava. Neste intuito de saber o que fora, e o que quer que isso quer dizer, resolvera abrir a janela. Mas como nada havia, não sabia se janela existia. Apalpava o nada, sem nada sentir. Tropeçava em algo, que nunca vira... pois não haviam formas nem cores... Sem cor, não vê, e se não vê, não existe. Ou existe? Odiava, odiava aquela dúvida! A dúvida que o fizera sair daquele canto, no meio do nada da casa vazia. No seu canto, nada sentia... não sentia medo, alegria ou tristeza... porque afinal, desconhecia essas sensações... Mas um dia (era dia?), uma pontada o fizera se questionar: havia algo além do nada? Havia alguém além de si? Ah! Dúvida, dúvida!!!! Batera milhões de vezes a cabeça.... descobrira o pranto e a dor, que antes lhe eram estranhos... Por quê? Por quê? Por quê? Mas havia decidido! Iria abrir a janela! Nem sabia o que era uma janela, mas iria abri-la... E assim continuou, tateando pela casa vazia... tropeçando em coisas que não haviam, em objetos que não existiam, sem nunca encontrar a janela... 03/06/2004 O Pensador de RodinGabriela Mistral Apoiando na mão rugosa o queixo fino, O Pensador reflete que é carne sem defesa: Carne da cova, nua em face do destino, Carne que odeia a morte e tremeu de beleza. E tremeu de amor; toda a primavera ardente, E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza. O "havemos de morrer" passa-lhe pela mente Quando no bronze cai a noturna escureza. E na angústia seus músculos se fendem sofredores. Sua carne sulcada enche-se de terrores, Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida, Crispados como este homem que medita na morte. ![]() 01/06/2004 FioCecília Meireles No fio da respiração rola minha vida monótona, rola o peso do meu coração. Tu não vês o jogo perdendo-se como as palavras de uma canção. Passas longes, entre nuvens rápidas, com tantas estrelas na mão... -Para que serve o fio trêmulo em que rola o meu coração? 28/05/2004 OrganizarBruno Coutinho Abri meu baú E dele retirei minhas lembranças Separei uma a uma, cataloguei, enumerei e... 1 – Lembranças daquelas risadas 2 – Lembranças dos dias de chuvas 3 – Lembranças das tardes de pranto 4 – Lembranças das noites de Lua Cheia 5 – Lembranças dos momentos ébrios 6 – Lembranças dos momentos sóbrios 7 – Lembranças dos velhos amigos 8 – Lembranças dos sonhos esquecidos 9 – Lembranças das horas de solidão 10 – Lembranças dos séculos de solidão 11 – Lembranças da solidão 12 – Lembranças 13 – ... 14 – 15 não pude arquivar... 18/05/2004 Lua AdversaCecília Meirelles Tenho fases, como a lua Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha. Fases que vão e que vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso. E roda a melancolia seu interminável fuso! Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua...) No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu... 15/05/2004 GumeMax S. Moreira Tender às bordas é uma sina. Os limites, ora estreitos limítrofes, ora largo litoral, inclinam-me. Meandros confundem-se entremeios. Entre o abismo e a orla, pergaminho. Ora a brisa, ora a água, toca-me os pés. Não-caminho, margeio. 11/05/2004 500!!Pouco mais de uma semana após ter atingido 300 visitantes, a Casa dos Contos chega aos 500!!!! Mais uma vez, reitero o agradecimento a todos que por aqui passam! Quando quiserem tomar um cafézinho, podem vir! A Casa é de vocês! ![]() Pós-tudo - Augusto de Campos 09/05/2004 No Meio do CaminhoCristina Maria de Medeiros Onde está ele? - Ele quem? - Qualquer ele. Que tal o homem? ... Onde está o homem? - No meio do caminho. - E onde ele estava quando começou a andar? - No meio do caminho, ora!!! - E onde acaba o homem? - (suspiro) No m e i o do caminho. - O que é transição? - Meu Deus é moderno. Meu Leonardo é bruxo - E o que não é transição? Nada. Mais um poema "roubado" do A 4 Mãos 09/05/2004 Lugar AlgumBruno Coutinho Em caminhos nunca percorridos, vou seguindo rumo ao desconhecido. Atravesso vales e mares, ruas escuras e ofuscantes. Vou sempre seguindo, para lugar algum, encontrar ninguém. Meu tempo é curto, minha estrada, longa. Tenho evitado atalhos, vou sempre pela mesma estrada, lenta e dolorosamente. Na minha jornada pra lugar algum encontro fatos e fotos, lembranças enterradas em minha alma, que nem eu mesmo me lembrava. Lembranças... gostaria de não tê-las. São sempre dolorosas, ou no mínimo saudosistas. Nos faz sempre lembrar que o ontem era melhor que o hoje, mesma que não o tenha realmente sido. Em Lugar Algum não há lembranças, nem memórias... não há sonhos nem pesadelos, nem dor nem felicidade... Em lugar Algum me encontrarei... 08/05/2004 MetadeOswaldo Montenegro Que a força do medo que tenho não me impeça de ver o que anseio. Que a morte de tudo que acredito não me tape os ouvidos e a boca. Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio. Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste. Que a mulher que eu amo seja sempre amada, mesmo que distante. Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade. Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor, Apenas respeitadas como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento. Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo. Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço, Que essa tensão que me corroe por dentro seja um dia recompensada. Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão. Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável Que o espelho reflita em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância. Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei... Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito. E que o teu silêncio me fale cada vez mais. Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço. Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba, e que ninguém a tente Complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer. Porque metade de mim é a plateia e a outra metade, a canção. E que minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade... também. 07/05/2004 QuebradoBruno Coutinho Cada passo dado Cada passo largo cada passo em falso Cada sonho amargo É fetiche em falso É feitiço em valsa Cada flor pisada É sonho quebrado É valsa dançada Cada amor partido É como flor pisada É sonho quebrado Cada passo dado Cada laço dado Cada nó quebrado Cada amor quebrado É fetiche em valsa Cada passo largo Cada sonho partido É como laço largo É feitiço falso Cada flor amarga Cada sonho em valsa Cada amor pisado Cada passo dado Cada passo largo Cada passo em falso 06/05/2004 PassagemBruno Coutinho Quanto tempo passou Os sonhos mudaram Águas que corriam antes, hoje não correm mais Na minha janela outros pássaros cantam Bate vento vindo de outros lugares Já não brilham as mesmas estrelas Os olhos já não são os mesmos tantas coisas eles viram tantas marcas eles trazem Mas o sopro... Este continua o mesmo E todas as manhãs vem brincar com seus cabelos 04/05/2004 O Caso do VestidoCarlos Drummond de Andrade Nossa mãe, o que é aquele vestido, naquele prego? Minhas filhas, é o vestido de uma dona que passou. Passou quando, nossa mãe? Era nossa conhecida? Minhas filhas, boca presa. Vosso pai evém chegando. Nossa mãe, dizei depressa que vestido é esse vestido. Minhas filhas, mas o corpo ficou frio e não o veste. O vestido, nesse prego, está morto, sossegado. Nossa mãe, esse vestido tanta renda, esse segredo! Minhas filhas, escutai palavras de minha boca. Era uma dona de longe, vosso pai enamorou-se. E ficou tão transtornado, se perdeu tanto de nós, se afastou de toda vida, se fechou, se devorou, chorou no prato de carne, bebeu, brigou, me bateu, me deixou com vosso berço, foi para a dona de longe, mas a dona não ligou. Em vão o pai implorou. Dava apólice, fazenda, dava carro, dava ouro, beberia seu sobejo, lamberia seu sapato. Mas a dona nem ligou. Então vosso pai, irado, me pediu que lhe pedisse, a essa dona tão perversa, que tivesse paciência e fosse dormir com ele... Nossa mãe, por que chorais? Nosso lenço vos cedemos. Minhas filhas, vosso pai chega ao pátio. Disfarcemos. Nossa mãe, não escutamos pisar de pé no degrau. Minhas filhas, procurei aquela mulher do demo. E lhe roguei que aplacasse de meu marido a vontade. Eu não amo teu marido, me falou ela se rindo. Mas posso ficar com ele se a senhora fizer gosto, só pra lhe satisfazer, não por mim, não quero homem. Olhei para vosso pai, os olhos dele pediam. Olhei para a dona ruim, os olhos dela gozavam. O seu vestido de renda, de colo mui devassado, mais mostrava que escondia as partes da pecadora. Eu fiz meu pelo-sinal, me curvei... disse que sim. Sai pensando na morte, mas a morte não chegava. Andei pelas cinco ruas, passei ponte, passei rio, visitei vossos parentes, não comia, não falava, tive uma febre terçã, mas a morte não chegava. Fiquei fora de perigo, fiquei de cabeça branca, perdi meus dentes, meus olhos, costurei, lavei, fiz doce, minhas mãos se escalavraram, meus anéis se dispersaram, minha corrente de ouro pagou conta de farmácia. Vosso pais sumiu no mundo. O mundo é grande e pequeno. Um dia a dona soberba me aparece já sem nada, pobre, desfeita, mofina, com sua trouxa na mão. Dona, me disse baixinho, não te dou vosso marido, que não sei onde ele anda. Mas te dou este vestido, última peça de luxo que guardei como lembrança daquele dia de cobra, da maior humilhação. Eu não tinha amor por ele, ao depois amor pegou. Mas então ele enjoado confessou que só gostava de mim como eu era dantes. Me joguei a suas plantas, fiz toda sorte de dengo, no chão rocei minha cara, me puxei pelos cabelos, me lancei na correnteza, me cortei de canivete, me atirei no sumidouro, bebi fel e gasolina, rezei duzentas novenas, dona, de nada valeu: vosso marido sumiu. Aqui trago minha roupa que recorda meu malfeito de ofender dona casada pisando no seu orgulho. Recebei esse vestido e me dai vosso perdão. Olhei para a cara dela, quede os olhos cintilantes? quede graça de sorriso, quede colo de camélia? quede aquela cinturinha delgada como jeitosa? quede pezinhos calçados com sandálias de cetim? Olhei muito para ela, boca não disse palavra. Peguei o vestido, pus nesse prego da parede. Ela se foi de mansinho e já na ponta da estrada vosso pai aparecia. Olhou pra mim em silêncio, mal reparou no vestido e disse apenas: — Mulher, põe mais um prato na mesa. Eu fiz, ele se assentou, comeu, limpou o suor, era sempre o mesmo homem, comia meio de lado e nem estava mais velho. O barulho da comida na boca, me acalentava, me dava uma grande paz, um sentimento esquisito de que tudo foi um sonho, vestido não há... nem nada. Minhas filhas, eis que ouço vosso pai subindo a escada Para conferir matéria sobre o filme O Vestido, baseado neste poema de Drummond, acesse Casa Cultura 04/05/2004 Casa Cultura![]() Quero convidar todos os amigos para conhecer o meu segundo blog, Casa Cultura. Neste novo espaço, poderá ser conferido informações culturais, dicas sobre música, arte, cinema, teatro, exposições... Contaremos também com dicas de lugares, shows e eventos, sendo um canal aberto com a cultura. Conto com vocês por lá. A Casa dos Contos continua firme e forte, trazendo sempre um pouco de poesia e arte, de mãos dadas agora com a Casa Cultura. Espero que aproveitem o passeio! 02/05/2004 300A Casa dos Contos atingiu hoje 300 visitas! Agradeço a todos aqueles que visitaram a Casa. As portas estarão sempre abertas. Agradecimentos especiais: Tatiana - Mexidão Paulinha - Assim Assado Panis - Almanaque Cristina e Fábio - A 4 Mãos Ana - Todos os Sentidos Ana Paula - Mundo da Comunicação Reinaldo - Coração Noturno D. Vera Viviane Mary's Band Maira Lilisa Denise Gi Déia Tatá Marcelinha Léo Obrigado a todos! "No azul no azul turqueza, Já que a Casa está vazia Vem me fazer companhia Na janela da cozinha..." Flavio Henrique ![]() 29/04/2004 OrienteGilberto Gil Se oriente, rapaz Pela constelação do Cruzeiro do Sul Se oriente, rapaz Pela constatação de que a aranha Vive do que tece Vê se não se esquece Pela simples razão de que tudo merece Consideração Considere, rapaz A possibilidade de ir pro Japão Num cargueiro do Lloyd lavando o porão Pela curiosidade de ver Onde o sol se esconde Vê se compreende Pela simples razão de que tudo depende De determinação Determine, rapaz Onde vai ser seu curso de pós-graduação Se oriente, rapaz Pela rotação da Terra em torno do Sol Sorridente, rapaz Pela continuidade do sonho de Adão 28/04/2004 Triunfo das NulidadesRuy Barbosa De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto 26/04/2004 São JorgeDia 23 agora foi o dia de São Jorge. Sem querer tomar partido religioso, mas vale a pena lembrar esta bela canção.Salve Jorge Ben! Jorge de Capadócia Jorge Ben Jorge sentou praça na cavalaria E eu estou feliz porque eu também Sou da sua companhia Eu estou vestido com a roupas e as armas de Jorge Para que meus inimigos tenham pés E não me alcancem Para que meus inimigos tenham mãos E não me toquem Para que meus inimigos tenham olhos E não me vejam E nem mesmo pensamentos eles possam ter Para me fazerem mal Armas de fogo Meu corpo não alcançarão Facas e espadas se quebrem sem o meu corpo tocar Cordas e correntes se arrebentem Sem o meu corpo amarrar Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge Jorge da Capadócia, salve Jorge , salve Jorge ![]() 26/04/2004 Borboletas...“Uma noite, sonhei que era uma borboleta. De repente, despertei e era Chuang Tsé. Quem sou eu? Uma borboleta que sonha que é Chuang Tsé, ou Chuang Tsé que imagina que é uma borboleta.” Citação do filósofo e poeta chinês Chuang Tsé (300 D.C.) ![]() 26/04/2004 PalavrasSílvia Plath Golpes De machado na madeira, E os ecos! Ecos que partem A galope. A seiva Jorra como pranto, como Água lutando Para repor seu espelho Sobre a rocha Que cai e rola, Crânio branco Comido pelas ervas. Anos depois, na estrada, Encontro Essas palavras secas e sem rédeas, Bater de cascos incansável. Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas Decidem uma vida. 26/04/2004 Miró![]() Juan Miró - Personagem Atirando uma Pedra num Pássaro, 1926 25/04/2004 MemóriaCristina Maria de Medeiros Eu hoje cortei os cabelos, porque nem tudo se pode cortar Poema "roubado" de a4mãos 24/04/2004 VerVassíli Kandinski O Azul, o Azul se alçava, se alçava e caía. O Agudo, o Fino assobiava e penetrava, mas não saía. De todos os lados ressoava. O Marrondenso como que suspenso para sempre. Penso. Penso. Abre ainda mais amplo os braços. Amplo. Amplo. Cobre o teu rosto com um lenço vermelho. E pode ser que nada se tenha ainda movido: só você se moveu. O branco salto após o salto branco. E após o salto branco ainda um branco salto. E neste branco salto um branco salto. Em cada branco salto um branco salto. E este é o mal, é que não vês o turvo: no turvo é que ele está. É aí que tudo começa.................................................. ...........................................Rompeu-se..................... ![]() Composition IV, 1911 24/04/2004 Em silêncio eu me construoClóvis Brondani Em silêncio eu me construo, Alargo minha solidão Para que nela caiba ainda mais Daquilo que eu quero criar. Eu me amarguro no meu silêncio, Enquanto os medíocres passam do meu lado. Me calo diante de suas farpas, E uma lágrima somente cai no meu interior, (Que é uma lágrima dentro de um oceano de lágrimas?) E se torna uma Niágara de sons, Que eu transformo em mágica, Apenas para mim mesmo. Em mim cada vez mais se vê apenas o silêncio, O sinal da minha repugnância Aos rasteiros, aos cegos e ordinários. Silêncio de desprezo e dó, Por que cada dia sou eu que me reconstruo, E esboço meu grito anti-pequenês, Anti-mesquinhês, anti-medianês. E mesmo que meu grito só a mim seja audível, Isto pouco importa, Pois meu canto é muito algo para o ordinário. O silêncio do trágico Não é compreensível pelo miserável. Mas eu não cegarei meus olhos como um Édipo arrependido, Pois do trágico não sou culpado, apenas sou. Minha tragédia é encarar a solidão, Pois é nela que eu crio, Para mim mesmo apenas, Ou para algum outro alucinado, Que como eu esteja interessado em enigmas, Ou apenas precisando de silencio, E palavras suaves. 23/04/2004 A Dor do Não VividoEmílio Moura Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido junto e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade. Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar. Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender. Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada. Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar. Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: Se iludindo menos e vivendo mais!!! A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional. 23/04/2004 Teste Bacana![]() Faça você também Que gênio-louco é você? Uma criação de O Mundo Insano da Abyssinia ![]() Você é "Imensidão Azul" de Luc Besson. Você é sonhador, único. Muito sublime e encantador(a). Faça você também Que bom filme é você? Uma criação de Mundo Insano da Abyssinia 23/04/2004 Eu...Florbela Espanca Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho, e desta sorte Sou a crucificada... a dolorida... Sombra de névoa tênue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida!... Sou aquela que passa e ninguém vê... Sou a que chamam triste sem o ser... Sou a que chora sem saber por quê... Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver, E que nunca na vida me encontrou! 22/04/2004 TiradentesHomenagem (tardia!) da Casa dos Contos a todos aqueles que lutaram e lutam por seus ideais, e que acreditam que um novo país é possível. Notícias do Brasil Milton Nascimento/Fernando Brant Uma notícia está chegando lá do Maranhão Não deu no rádio, no jornal ou na televisão Veio no vento que soprava lá no litoral De Fortaleza, de Recife e de Natal A boa nova foi ouvida em Belém, Manaus João Pessoa, Teresina e Aracaju E lá do norte foi descendo pro Brasil central Chegou em Minas, já bateu bem lá no sul Aqui vive um povo que merece mais respeito Sabe, belo é o povo como é belo todo amor Aqui vive um povo que é mar e que é rio E seu destino é um dia se juntar O canto mais belo será sempre mais sincero Sabe, tudo quanto é belo será sempre de espantar Aqui vive um povo que cultiva a qualidade Ser mais sábio que quem o quer governar A novidade é que o Brasil não é só litoral É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul Tem gente boa espalhada por esse Brasil Que vai fazer desse lugar um bom país Uma notícia está chegando lá do interior Não deu no rádio, no jornal ou na televisão Ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil Não vai fazer desse lugar um bom país 20/04/2004 MotivoCecília Meireles Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste : sou poeta. Irmão das coisas fugidias, Não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, – não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno e asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: – mais nada ![]() 20/04/2004 Traduzir-seFerreira Gullar Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem. Traduzir uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte - será arte? 20/04/2004 Soneto da SeparaçãoVinícius de Moraes De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez o drama. De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente 19/04/2004 PoéticaJosé Paulo Paes Não sei palavras dúbias. Meu sermão Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão. Com duas mãos fraternas, cumplicio A ilha prometida à proa do navio. A posse é-me aventura sem sentido. Só compreendo o pão dividido. Não brinco de juiz, não me disfarço em réu. Aceito meu inferno, mas falo do meu céu. 19/04/2004 MarchaCecília Meireles As ordens da madrugada romperam por sobre os montes: nosso caminho se alarga sem campos verdes nem fontes. Apenas o sol redondo e alguma esmola de vento quebram as formas do sono com a idéia do movimento. Vamos a passo e de longe; entre nós dois anda o mundo, com alguns mortos pelo fundo. As aves trazem mentiras de países sem sofrimento. Por mais que alargue as pupilas, mais minha dúvida aumento. Também não pretendo nada senão ir andando à toa, como um número que se arma e em seguida se esboroa, - e cair no mesmo poço de inércia e de esquecimento, onde o fim do tempo soma pedras, águas, pensamento. Gosto da minha palavra pelo sabor que lhe deste: mesmo quando é linda, amarga como qualquer fruto agreste. Mesmo assim amarga, é tudo que tenho, entre o sol e o vento: meu vestido, minha música, meu sonho e meu alimento. Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudade; tenho visto muita coisa, menos a felicidade. Soltam-se os meus dedos ristes, dos sonhos claros que invento. Nem aquilo que imagino já me dá contentameno. Como tudo sempre acaba, oxalá seja bem cedo! A esperança que falava tem lábios brancos de medo. O horizonte corta a vida isento de tudo, isento... Não há lágrima nem grito: apenas consentimento. O Beijo - Di Cavalcanti 18/04/2004 Nada MaisBruno Coutinho Nada mais me separa do meuNada mais me afasta do seu Nada mais me isola do Eu Nada mais me confina no breu Nada mais me abraça, meu Nada mais me acalenta, seu Nada mais me fascina, Eu Nada mais me ilumina, breu Nada mais me sacia, meu Nada mais me socorre, seu Nada mais me persegue, Eu Nada mais me preenche, breu 18/04/2004 Do Desejo(Trechos) Hilda Hist Porque há desejo em mim, é tudo cintilância. Antes, o cotidiano era um pensar alturas Buscando Aquele Outro decantado Surdo à minha humana ladradura. Visgo e suor, pois nunca se faziam. Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo Tomas-me o corpo. E que descanso me dás Depois das lidas. Sonhei penhascos Quando havia o jardim aqui ao lado. Pensei subidas onde não havia rastros. Extasiada, fodo contigo Ao invés de ganir diante do Nada. 14/04/2004 Das PedrasCora Coralina Ajuntei todas as pedras que vieram sobre mim. Levantei uma escada muito alta e no alto subi. Teci um tapete floreado e no sonho me perdi. Uma estrada, um leito, uma casa, um companheiro. Tudo de pedra. Entre pedras cresceu a minha poesia. Minha vida... Quebrando pedras e plantando flores. Entre pedras que me esmagavam Levantei a pedra rude dos meus versos. 14/04/2004 A SerenataAdélia Prado Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mãos incríveis tocar flauta no jardim. Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa. Eu que rejeito e exprobro o que não for natural como sangue e veias descubro que estou chorando todo dia, os cabelos entristecidos, a pele assaltada de indecisão. Quando ele vier, porque é certo que vem, de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? A lua, os gerânios e ele serão os mesmos — só a mulher entre as coisas envelhece. De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa? 14/04/2004 SolidãoAlcides Fernandes /Tom Jobim Sofro calada na solidão Guardo comigo a memória do seu vulto em vão Eu tudo fiz por você e o resultado... desilusão! O dia passa A noite vem A solução deste caso eu cansei de buscar Eu vou rezar pra você me querer outra vez como um dia me quis 01/04/2004 Hão de escutar-meHão de escutar-me! Minha mensagem é triste e definitiva. É passado o tempo de guerra e os casais enamorados podem outra vez andar de mãos dadas nas praças Hão de escutar-me! Já não há mais praças, nem casais mãos não se dão olhares não se cruzam Hão de escutar-me, pois trago notícia de longe de terra que não tem mais fim onde os homens já não têm mais lágrimas Hão de escutar-me! Pois o momento do julgamento está por vir não mais se canta, não mais se dança poesia, não há. Hão de escutar-me! Pois o fim se aproxima sem medo sem dor ódio ou rancor Hão de escutar-me! Hão de aprisionar-me louco perigoso, doido varrido Hão de escutar-me! Falso profeta do fim do mundo Hão de me escutar e me calar... 28/03/2004 Soneto à LiberdadeOscar Wilde Não que eu ame teus filhos cujo olhar obtuso Somente vê a própria e repugnante dor, Cuja mente não sabe, ou quer saber, de nada É que, com seu rugir, tuas Democracias, Teus reinos de Terror e grandes Anarquias Refletem meus afãs extremos como o mar, Dando-me Liberdade! -à cólera uma irmã. Minha alma circunspecta gosta de teus gritos Confusos só por causa disso: do contrário, Reis com sangrento açoite ou seus canhões traiçoeiros Roubavam às nações seus sagrados direitos, Deixando-me impassível e ainda, ainda assim, Esses Cristos que morrem sobre as barricadas, Deus sabe que os apóio ao menos parcialmente. Jim Morrison sofrera grande influência de mestres como Wilde e Huxley 24/03/2004 CogitoTorquato Neto eu sou como eu sou pronome pessoal intransferível do homem que iniciei na medida do impossível eu sou como eu sou agora sem grandes segredos dantes sem novos secretos dentes nesta hora eu sou como eu sou presente desferrolhado indecente feito um pedaço de mim eu sou como eu sou vidente e vivo tranqüilamente todas as horas do fim. 21/03/2004 O JardimNão consigo sequer escrever. Minha alma grita seu nome, meu corpo frio implora pelo calor de seus braços. Meus olhos buscam os seus, mas nunca os terá. Meus sonhos rumam para os seus, meus caminhos se fazem cruzar os seus, mas os seus apenas seguem. Patético. Mas o que posso fazer, se minha alma se entregou a sua, e a sua não o fez a minha, e nem o fará? Como transformar este sentimento? Minha alma grita novamente. Não consigo calá-la. Oh Deus, como eu queria, como eu desejo, um único momento de afeição. Um único momento, em que, naquele instante, seria eterno. Oh Deus. O que fazer? Minhas lágrimas não cessam, meu coração continua descompassado, como se não fosse realmente meu, e acredito que já não o seja mesmo. O deixei em um jardim, onde a Lua iluminava o banco vazio, onde só o meu coração habitava. Belo jardim, lindo, mas tão frio e tão distante. Me sinto habitante deste jardim, ou será que ele que me habita? Oh, Jardim de amores, mil vezes me sentarei em seu banco, mas nunca serei convidado a conhece-lô. Fico assim, quietinho, sentado, cabeça baixa, observando sua beleza e sua energia, sem nunca poder compartilhar de suas flores e seu luar. Ah, como eu amo este jardim, e como eu queria poder nele brincar, tal qual uma criança, tal qual um amante, tal qual a mais forte árvore que o fecunda. Não, não quero mais ser erva daninha, quero fixar raízes, penetrar a terra e expandir ao Sol, sentir o calor do húmus e o frescor de suas águas. Penso nisto enquanto estou sentado em seu banco, quieto, de cabeça baixa, sozinho... 21/03/2004 JoséCarlos Drummond de Andrade E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, Você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, Você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? E agora, José? sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio, - e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse, a valsa vienense, se você dormisse, se você consasse, se você morresse.... Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja do galope, você marcha, José! José, para onde? 15/03/2004 Amores PossíveisPaulinho Moska Sim, Tudo agora está no seu lugar O universo até parece conspirar pra que não seja em vão, Tanto tempo esperando esse amor Sim, Parece até que nada em nós mudou Tanta coisa a gente inventou Pra chegar afinal onde sempre eu te quis ver chegar Paixões que eu vivi como se fosse uma, A tua espera sempre foi assim Contratos feitos com o tempo Amores são sempre possíveis 14/03/2004 Algo ExisteEmily Dickinson Algo existe num dia de verão, No lento apagar de suas chamas, Que me impele a ser solene. Algo, num meio-dia de verão, Uma fundura - um azul - uma fragrância, Que o êxtase transcende. Há, também, numa noite de verão, Algo tão brilhante e arrebatador Que só para ver aplaudo - E escondo minha face inquisidora Receando que um encanto assim tão trêmulo E sutil, de mim se escape 13/03/2004 Você Está Tão LongePaulo Leminsky você está tão longe que às vezes penso que nem existo nem fale em amor que amor é isto 11/03/2004 A Aranha do meu DestinoFernando Pessoa A aranha do meu destino Faz teias de eu não pensar. Não soube o que era em menino, Sou adulto sem o achar. É que a teia, de espalhada Apanhou-me o querer ir... Sou uma vida baloiçada Na consciência de existir A aranha da minha sorte Faz teia de muro a muro... Sou presa do meu suporte. 11/03/2004 EsperançaMário Quintana Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano Vive uma louca chamada Esperança E ela pensa que quando todas as sirenas Todas as buzinas Todos os reco-recos tocarem Atira-se E — ó delicioso vôo! Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada, Outra vez criança... E em torno dela indagará o povo: — Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes? E ela lhes dirá (É preciso dizer-lhes tudo de novo!) Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: — O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA... 10/03/2004 As Seis CordasFrederico Garcia Lorca A guitarra faz soluçar os sonhos. O soluço das almas perdidas foge por sua boca redonda. E, assim como a tarântula, tece uma grande estrela para caçar suspiros que bóiam no seu negro abismo de madeira. 06/03/2004 Grandes DesejosAdélia Prado Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia, sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia. Faço comida e como. Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro e atiro os restos. Quando dói, grito ai, quando é bom, fico bruta, as sensibilidades sem governo. Mas tenho meus prantos, claridades atrás do meu estômago humilde e fortíssima voz para cânticos de festa. Quando escrever o livro com o meu nome e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja, a uma lápide, a um descampado, para chorar, chorar e chorar, requintada e esquisita como uma dama. 06/03/2004 QueroThomas Roth Quero ver o sol atrás do muro Quero um refúgio que seja seguro Uma nuvem branca, sem pó nem fumaca Quero um mundo feito sem porta, vidraca Quero uma estrada que leve à verdade Quero a floresta em lugar da cidade Uma estrela pura de ar respirável Quero um lago limpo de água potável Quero voar de mãos dadas com você Ganhar o espaco em bolhas de sabão Escorregar pelas cachoeiras Pintar o mundo de arco-íris Quero rodas nas asas do girassol Fazer cristais com gotas de orvalho Cobrir de flores campos de aco Beijar de leve a face da lua ![]() Elis Regina 06/03/2004 O Dia Passa...O dia passa, e eu continuo, o tempo corre, e eu continuo Já não tento te esquecer, já não tento te perder Eu continuo... Cego, passarinho caído do ninho, sem casa, sem alma Eu continuo... Os olhos já não brilham, o corpo não esquenta mais os sonhos, sonhos... Eu continuo... ![]() Poppies and butterflies - Van Gogh 06/03/2004 EsquecimentoFlorbela Espanca Esse de quem eu era e era meu, Que foi um sonho e foi realidade, Que me vestiu a alma de saudade, Para sempre de mim desapareceu. Tudo em redor então escureceu, E foi longínqua toda a claridade! Ceguei... tateio sombras... que ansiedade! Apalpo cinzas porque tudo ardeu! Descem em mim poentes de Novembro... A sombra dos meus olhos, a escurecer... Veste de roxo e negro os crisântemos... E desse que era eu meu já me não lembro... Ah! a doce agonia de esquecer A lembrar doidamente o que esquecemos...! 06/03/2004 SaudadePatativa do Assaré Saudade dentro do peito É qual fogo de monturo Por fora tudo perfeito, Por dentro fazendo furo. Há dor que mata a pessoa Sem dó e sem piedade, Porém não há dor que doa Como a dor de uma saudade. Saudade é um aperreio Pra quem na vida gozou, É um grande saco cheio Daquilo que já passou. Saudade é canto magoado No coração de quem sente É como a voz do passado Ecoando no presente. A saudade é jardineira Que planta em peito qualquer Quando ela planta cegueira No coração da mulher, Fica tal qual a frieira Quanto mais coça mais quer. 19/02/2004 O VentoMário Quintana Havia uma escada que parava de repente no ar Havia uma porta que dava para não se sabia o quê Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés E pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo E o vento! O vento que vinha desde o princípio do mundo Estava brincando com teus cabelos... 12/02/2004 EuEis meu Eu Um Eu solto, poético um Eu lacrimoso e sorridente Um Eu cansado, mas de grandes expectativas um Eu sozinho buscando seu próprio Eu Passando por olhares e montanhas, Cruzando brumas, Soluçando nos cantos um pranto seco Meu Eu continua seguindo Por momentos parando, Estacionando no tempo Por outras voando foguete Sem pausa nem beijo Este louco Eu me encontra Destino e partida Me sorri - e se despede ![]() Lasar Segall - Pranto, 1921 / Grafite 12/02/2004 A PartidaFranz Kafka Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me entendeu. Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi soar à distância uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele não sabia de nada e não havia escutado nada. Perto do portão ele me deteve e perguntou: – Para onde cavalga senhor? – Não sei direito – eu disse –, só sei que é para fora daqui, fora daqui. Fora daqui sem parar; só assim posso alcançar meu objetivo. – Conhece então o seu objetivo? – perguntou ele. – Sim – respondi – Eu já disse: “fora-daqui”, é esse o meu objetivo. – O senhor não leva provisões – disse ele. – Não preciso de nenhuma – disse eu. – A viagem é tão longa que tenho de morrer de fome se não receber nada no caminho. Nenhuma provisão pode me salvar. Por sorte esta viagem é realmente imensa. ![]() Desenho de Kafka para "O processo" 12/02/2004 O Mundo é GrandeCarlos Drummond de Andrade O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar. 12/02/2004 Deixa o Olhar do Mundo...Olavo Bilac Deixa que o olhar do mundo enfim devasse Teu grande amor que é teu maior segredo! Que terias perdido, se, mais cedo, Todo o afeto que sentes se mostrasse? Basta de enganos! Mostra-me sem medo Aos homens, afrontando-os face a face: Quero que os homens todos, quando eu passe, Invejosos, apontem-me com o dedo. Olha: não posso mais! Ando tão cheio Deste amor, que minh'alma se consome De te exaltar aos olhos do universo... Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio: E, fatigado de calar teu nome, Quase o revelo no final de um verso. 12/02/2004 Minha Morte Nasceu...Mário Quintana Minha morte nasceu quando eu nasci. Despertou, balbuciou, cresceu comigo... E dançamos de roda ao luar amigo Na pequenina rua em que vivi. Já não tem mais aquele jeito antigo De rir, e que, ai de mim, também perdi! Mas inda agora a estou sentindo aqui, Grave e boa, a escutar o que lhe digo: Tu que és minha doce Prometida, Não sei quando serão nossas bodas, Se hoje mesmo... ou no fim da longa vida... E as horas lá se vão, loucas ou tristes... Mas é tão bom, em meio às horas todas, Pensar em ti... saber que tu existes! 10/02/2004 As Cruzes do CaminhoOsvaldo França Junior A minha estrada é cheia de bruma. Tenho que ir devagar para não me perder. Ao lado da estrada só vejo pequenas manchas escuras. São cruzes. São as cruzes do caminho. Nas ocasiões em que me desvio, tropeço nessas pequenas manchas e volto a direção correta. Vou sempre com bastante atenção, mas consciente que essas cruzes irão interromper minha jornada quando eu não puder mais visualizar a estrada 10/02/2004 Antropofagia modernista"Vamos comer Caetano?" ![]() Abaporu - Tarsila Amaral 09/02/2004 D'AlmaAtravessei a rua, em direção ao acaso, Fechei meus olhos e abri meu peito Senti o beijo da brisa em minha face Parti rumo ao desconhecido Andei por becos e vielas Conheci pessoas Neguei meu destino Mudei a linha Limpei o corpo e a alma Imaginei, criei Nestes becos e vielas do meu coração eu dancei... Dancei uma valsa louca um samba descompassado Sem eira, nem beira Por vezes gritei bem alto Não para ser escutado mas, pelo simples prazer de gritar Em outras, me mantive em silêncio por dias e noites Contando estrelas e abraçando nuvens Me entreguei ao acaso viajamos de mãos dadas realizamos sonhos e depois, voltei a mim 09/02/2004 A Última Gota de VinhoA última gota de vinho Tal qual a última gota de sangue Amarga minha garganta Seca meus lábios A última gota de vinho Consome minha alma Suga minhas forças Escorre pelos meus dedos A última gota de vinho A casa vazia O cheiro ébrio da dor Medo... 08/02/2004 PoéticaVinícius de Morais De manhã escureço De dia, tardo De tarde, anoiteço De noite ardo A oeste a morte Contra quem vivo Do sul cativo O este é meu norte Outros que contém Passo por passo Eu morro ontem Nasço amanhã Aonde há espaço Meu tempo é quando 07/02/2004 Crônica do Eterno PensarVocê vai tentar Você vai correr Você vai gritar Você vai gemer Você vai amar Você vai sofrer Você vai chorar Você vai morrer! Olho para os lados! Onde? Onde? Procuro tua mão no escuro! Vazio! Não sei onde ir. Nem onde esconder Não sei como rir, não sei mais sofrer Quero gritar, meu canto calado Quero chorar, meu pranto rolado Quero dançar, meu corpo cansado Não sei onde ir, nem onde esconder Não sei como rir, não sei mais sofrer 07/02/2004 AnfiguriVinícius de Morais Aquilo que eu ouso Não é o que quero Eu quero o repouso Do que não espero Não quero o que tenho Pelo que custou Não sei de onde venho Sei para onde vou Homem, sou a fera Poeta, sou um louco Amante, sou pai Vida, quem me dera Amor, dura pouco Poesia, ai!... /BlogInicioPost?> |
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Mineiríssima
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