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25/09/2006 A Casab. c. A Casa, que nunca fechou suas portas, andou meio abandonada. Vazia, a poeira amontoando, garrafas vazias jogadas no chão. Era uma casa, era um sonho, era um recanto. Mas de tão vazia, de tão abandonada, começou a ruir. Ninguém por lá mais passava. Não se sentia mais cheiro de café. Quiçá broa! Mas a Casa, essa danada, se cansou! Gritou bem alto, sacudiu poeira, e agora, com a mesma cara de sempre, com o mesmo desejo de antes, Foi pro fogão. Esquentou a água, Mexeu a farinha, com duas gemas de ovos, e mais tantas outras coisas. E enfim, café fresco, bolo de fubá, espera, ansiosamente, os velhos e novos amigos! 02/07/2005 Coração VagabundoCaetano Veloso Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer Meu coração de criança não é só a lembrança de um vulto feliz de mulher que passou por meus sonhos sem dizer adeus e fez dos olhos meus um chorar mais sem fim Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim 14/04/2005 CorridinhoAdélia Prado O amor quer abraçar e não pode. A multidão em volta, com seus olhos cediços, põe caco de vidro no muro para o amor desistir. O amor usa o correio, o correio trapaceia, a carta não chega, o amor fica sem saber se é ou não é. O amor pega o cavalo, desembarca do trem, chega na porta cansado de tanto caminhar a pé. Fala a palavra açucena, pede água, bebe café, dorme na sua presença, chupa bala de hortelã. Tudo manha, truque, engenho: é descuidar, o amor te pega, te come, te molha todo. Mas água o amor não é. 18/01/2005 Delírios - Sábado à noiteBruno Coutinho Toca meu ombro Calado Olho para o lado - Me dá um cigarro Rua escura Muitas vozes, poucas almas - Não vai entrar não? Lá dentro forte cheiro de fumaça toca um disco de jazz Nada na minha mente - Há quanto tempo? Tempo demais – ou será tempo de menos? Sem toque, sem tato Sombras Vozes que se misturam Inaudíveis Esbarro em algo -É a esperança perdida... Mas se eu a encontrei? Não a sua, esperança de outro - Cadê a minha? Fugiu pra longe Longe onde? Mais longe do que você pode alcançar... Restos... Meu estômago embrulha - Me dá um cigarro! Não tenho fogo... apagado Derrubaram minha taça Onde está o tempo? Já passou... Cabeça Preciso desmaiar... 18/01/2005 Queria fazer poesia fina...Bruno Coutinho Queria fazer poesia fina Usar palavras rebuscadas Escrever intrínsecas, Interstícios... Queria fazer poesia fina Desenhar metáforas Falar da microscopista E da dona fia Queria fazer é poesia de luxo Falar do crepúsculo Baudeleirar... Queria mesmo é fazer poesia simples Arroz com feijão Angu, chuchu... Mas não sei fazer poesia fina Nem de luxo Só sei contar palavras Sem rebusco, Sem sentido Sei misturar as sentimentalidades Em panela de barro Temperar com lágrimas E soluços Lendo receita da ofélia (adélia?) 08/01/2005 A Poesia Me Persegue...A poesia me persegue Porcarias... Por horas me esqueço dela E começo a viver Mas quando nem bem começo a ser feliz, Ela me puxa pelo ombro e sussurra: “Não esquece de mim...” 08/01/2005 Com Licença PoéticaAdélia Prado Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não sou tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos - dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade da alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou 08/01/2005 Poema de Sete FacesCarlos Drummond de Andrade Quando nasci, um anjo torto Desses que vivem na sombra Disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens Que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, Não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: Pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos Não perguntam nada. O homem atrás do bigode É sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos O homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste Se sabias que eu não era Deus Se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo, Se eu me chamasse Raimundo Seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, Mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer Mas essa lua Mas esse conhaque Botam a gente comovido como o diabo. 08/12/2004 Sentimento do MundoCarlos Drummond de Andrade Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado, eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto o pântano sem acordes. Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento. Sinto-me disperso, anterior a fronteiras, humildemente vos peço que me perdoeis. Quando os corpos passarem, eu ficarei sozinho desfiando a recordação do sineiro, da viúva e do microscopista que habitavam a barraca e não foram encontrados ao amanhecer esse amanhecer mais noite que a noite. 15/11/2004 A SalaMaíra Paiva Casa dos Contos apresenta: A Sala Esta era apenas a sala. Uma sala tão suave Que exalava o aroma do vinho. Um cheiro que embriagava as lembranças de contos antigos. Felizes éramos tantos amigos. Na verdade, queríamos sempre mais. Os sabores se misturavam naquela sala. Sonhei em ter de volta as horas. Onze, doze, treze horas... O tempo estava esparramado no chão. E havia livros. E havia a madrugada. Belos contos, notáveis palavras. Uma música embalava a garrafa que aos poucos se cansava e dançava lá, pela metade. Dois prá cá, dois prá lá... Essa era apenas a sala e esse, ah... esse era apenas o meu conto... Este conto e o desenho eu ganhei de presente da artsita plástica Maíra Paiva, minha grande amiga e grande incentivadora. /BlogInicioPost?> |
P e r f i l
b. c .
E - m a i l :
M i n h a. O u t r a. C a s a:
A .C a s a. D o s. A m i g o s:
Mineiríssima
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